O tempo sempre esteve no centro da vida e da obra de Grazi Mendes. E na última edição do Festival Afrofuturismo, o tempo ganhou densidade e uma delicadeza ainda mais radical. Homenageada pela Vale do Dendê, que fez do título do seu livro – Ancestrais do Futuro o tema desta edição, a executiva tech, designer de futuros reconhecida como uma das 100 futuristas afrodescendentes mais influentes do mundo (MIPAD/ONU) chegou ao Festival Afrofuturismo Ano VII não apenas como referência intelectual, e sim como alguém que transforma o tempo em matéria viva, atravessada pelo corpo, ancestralidade e pela urgência de existir com sentido.
Ao provocar reflexões sobre imaginação radical, responsabilidade intergeracional e futuros desejáveis, o encontro da sua escrita no livro Ancestrais do Futuro – Qual a mudança que seu movimento alcança? com o Festival Afrofuturismo não foi por acaso – ambos partiram da provocação de imaginar futuros possíveis a partir de outras lógicas de mundo, rompendo com a ideia ocidental do tempo linear, acelerado e exaustivo. “No Ocidente, a gente tem essa ideia de que o tempo é uma flecha, o passado já passou, o presente quase não importa e a gente fica sempre projetando tudo para o futuro”, comentou Grazi Mendes.
Na contramão dessa lógica, sua obra propõe uma relação com o tempo espiralar inspirada em cosmovisões ancestrais. Ao lembrar o significado do símbolo Adinkra Sankofa, olhar para o passado não é nostalgia, e sim estratégia de fortalecimento coletivo. “A ideia é que passado, presente e futuro estão tecidos no mesmo tempo e no mesmo espaço. Nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou pelo caminho”, ressalta a escritora ao lembrar que enquanto futuros ancestrais podemos nos fortalecer a partir da ancestralidade para ressignificar o presente e construir outras perspectivas de futuro.
Essa reflexão ganhou mais profundidade a partir de sua vivência pessoal recente. Em tratamento de saúde, Grazi compartilha como essa experiência reorganizou sua relação com o tempo. “Hoje experimento o tempo de uma outra forma, o tempo das coisas que importam, das relações que fazem sentido”, conta. Para ela, cada escolha passa a ser também uma escolha de vida: “Tudo que você faz, você disponibiliza tempo de vida”.

Homenagem como legado
Ser homenageada no Festival Afrofuturismo, evento já consolidado no calendário do Novembro Negro em Salvador, foi recebido com emoção. Grazi relembra o momento em que Paulo Rogério Nunes, cofundador da Vale do Dendê e idealizador do Festival Afrofuturismo, noticiou o tema escolhido pela organização do evento, anunciado na edição anterior. “Eu não imaginava. Quando soube que o festival inteiro seria em homenagem ao meu livro, fiquei muito grata, me emocionei, chorei”, comentou. Para ela, o reconhecimento carrega um sentido coletivo: “É muito bonito perceber que aquilo que a gente cria faz sentido para outras pessoas, produz vida em outras histórias. Isso é legado”.
A gratidão atravessou sua participação nesta edição do início ao fim. O afeto também aparece como eixo da relação construída com o festival e com as pessoas que o realizam. “É muito bom quando a gente encontra pessoas que olham pra gente de forma bonita, generosa”, comentou.
Mais do que uma homenagem, a presença de Grazi Mendes no Festival Afrofuturismo Ano VII se configurou como um convite à escuta, à pausa e à reorganização do que importa. Em um mundo que insiste em acelerar, sua escrita e sua fala reafirmam que o tempo é sagrado, em uma edição que reuniu mais de cinco mil pessoas no Centro Histórico de Salvador.